
matizes da vida
inspirado e desenvolvido sobre a lida e a métrica do poema “adiamento” de Álvaro de Campos (post anterior a este)
mcestari
matizes da vida
Queria escolher algo simples agora, sim bem simples, mas agora…
Se for depois de agora não vale o tédio pensar nesse exato agora,
E se demora desisto de ser agora; hoje não sei ser e agora…
Agora não dá, juro, eu me ignoro.
Cláusula eterna do pétreo contrato visual habitado à esquerda da minha pupila direita,
Divisão do meu hiato, míope,
A cegueira prematura transborda,
Pernas retas demais curveando o mundo…
Casualidade humana…
Mas hoje não sei ser agora.
Hoje esmero render-me,
Esmero render-me ao tédio de não ser nada agora para ser depois…
É sempre melhor ser depois.
Para depois ja sei tudo; mas não para agora, agora eu não me rendo…
Depois é a hora certa.
Depois tratar-me-ei de escrever esfrerográficamente a rendição;
Mas só depois de agora me renderei…
Contenho um canhão de afeto,
Contenho um canhão de afeto cheio de mentiras, infugível…
Não tem o que ser dizido, ou dito, não digo, não tem ditado.
Depois, fica para depois…
Antes da esperança amarrar o sapato a brincadeira brincava a revelia.
Agora só tenho esperança quando me esqueço de amarrar o sapato…
Depois de agora me mudarei,
A minha lembrança esquecer-se-á,
Em tudo de excesso transbordado na nota escorrida e pensa
Estará um parágrafo desiludido de linhas…
Mas por parágrafos depois das linhas…
Por agora qual o tamanho da palma me faria amarrar o cadarço?
Mesmo as mãos antes de depois atadas,
Que antes vindo, depois aguardado, guardo…
Agora nunca…
Depois de agora terei a novidade nova do velho.
Depois de agora enfim saberei o que nunca hoje soube.
Mas hoje não sei ser agora…
Temo ser mais brisa feita de ar.
Temo nem ventar.
Depois, ou depois, ou depois talvez eu sopre…
Infelizmente hoje não sei ser agora…
A bengala…
Sim, por favor, a bengala…